Sábado, Junho 27, 2009

Aceita uma taça de vinho? # 3

(Este é mais um artigo escrito para o jornal Floripa Total. Sua versão digital está aqui.)


Continuando nosso papo sobre vinho, chegou a vez de falar de preços! Como tudo mais, obviamente, também vamos encontrar vinhos mais caros e mais baratos. Uma aproximação simplista poderia reduzir a equação ao óbvio "quanto mais caro, melhor". Entretanto, nem sempre é assim. Vamos examinar a coisa com mais calma.

Há pouco fui informado que um produtor brasileiro paga R$ 3,60 por uma rolha de boa qualidade, R$ 3,20 por uma garrafa, e gasta mais cerca de R$ 1,50 com o rótulo e o lacre. Significa que apenas o "lixo" que sobra depois de nos deleitarmos, custa R$ 8,30. Sem considerarmos mais nada, nem o frete, já se vê que não pode haver vinho nacional razoável por menos que isso.

Entretanto, até pouco antes da crise econômica, havia razoáveis vinhos argentinos por esse preço. Como nossos vizinhos conseguem tal façanha? Quando eu descobrir, talvez abra uma vinícola!

Está claro que a indústria vinícola na Argentina e Chile é encarada com muito mais profissionalismo e há muito mais tempo que aqui. Sabemos, por exemplo, que enquanto uma plantação de uvas em território brasileiro recebe nada menos que 20 aplicações de pesticida por ano, na Argentina, há plantações que não recebem nenhuma.

Este fato, além de pesar nos custos, significa uma sanidade do produto argentino que nunca será sequer aproximada pelo médio produtor brasileiro. Isto também aponta na direção do respeito pelo consumidor, que não estaria pagando para ser envenenado.

Nem tudo são espinhos, entretanto. Ultimamente tem havido forte investimento estrangeiro no Vale do São Francisco, gerando vinhos de melhor qualidade, elaborados com mais atenção e cuidado, e com a preocupação de melhorar sua relação custo/benefício.

Alguém há de se lembrar dos impostos. Sim. É verdade. Os vinhos brasileiros pagam uma enormidade de impostos. Só que os vinhos estrangeiros também o pagam, assim que ultrapassam nossas aduanas e, mesmo assim, qualidade por qualidade, continuam com preços mais atrativos. E não só os argentinos e chilenos. Também os portugueses têm conseguido chegar aqui com preços mais atraentes que os nacionais. Os franceses, italianos, espanhóis, norte-americanos e sul-africanos, não. Seu preço comparativo é alto.

O que sobra, portanto, para imaginarmos? Claro! Que o produtor brasileiro não é tão eficiente quanto poderia ser. E não vale aqui nenhuma "patriotada" de dizer que os vinhos brasileiros têm ganhado prêmios em diversos locais do mundo. Não há vitória em concurso, por mais charmoso que possa ser, que me convença que deva pagar mais caro por um produto inferior.

Quer dizer que os vinhos importados são sempre bons? Claro que não! Eles apenas são, comparativamente, mais baratos. Podemos encontrar verdadeiros vinagres importados, sem dúvida, e aí é que chegamos ao que queria discutir no artigo de hoje.

- Os vinhos mais caros são sempre melhores que os mais baratos? A resposta é um retumbante NÃO! Existem vinhos numa faixa de preços muito baixa que são, obviamente, ruins, não importando a sua nacionalidade. O outro extremo também abriga verdades simples como esta: existem vinhos numa faixa de preços muito alta que são, inegavelmente, muito bons. Mas a grande "mágica" é que, numa faixa intermediária de preços, encontramos vinhos surpreendentemente bons, e que são até mais baratos que outros não tão bons.

Nesta equação encontramos um detalhezinho da maior relevância: a eficiência. Ainda não chegou a hora de mencionar marcas e variedades, mas alguns fabricantes de vinhos nossos conhecidos conseguem SEMPRE oferecer, em toda a sua linha, vinhos superiores a preços honestos.

Na faixa de preços mais alta acontece um fato curioso, para dizer o mínimo. Existem vinhos tão caros, que ninguém os toma. São comprados por grandes magnatas do primeiro mundo, que os utilizam como investimento. Há vinhos quem nem seus produtores têm coragem de bebê-los, tal é o preço que alcançam no mercado especulativo.

Há pouco tempo, jornais noticiaram a descoberta de um navio naufragado durante a Segunda Guerra, quando levava um enorme carregamento de champanha para a Rússia. Ora, essas garrafas ficaram cerca de 60 anos no fundo do mar. Quando foram retiradas, muitas delas estavam razoavelmente protegidas pela embalagem. Esses vinhos foram leiloados e vendidos por uma fortuna! Alguém quer que eu acredite que alguém vá bebê-los? - Nunca! Até porque, se uma garrafa dessas for aberta, com toda certeza, mostrará que seu conteúdo não passa de água salgada que penetrou pelos poros das rolhas.

Então, caso eu encontre um vinho muito caro, com certeza, ficará onde estiver, pois um vinho que custe, digamos, 20 vezes o preço de um de que eu goste, não me dará vinte vezes mais prazer, disso tenho certeza.

Resumo da ópera: os melhores vinhos, aqueles que nos darão mais prazer, serão os que estão numa faixa de preço ao alcance de nosso bolso. Seja ele mais recheado ou mais esquálido. É simples assim.

Um dia falaremos do assalto que é o preço de uma garrafa de vinho em um restaurante!

Domingo, Junho 07, 2009

Aceita uma taça de vinho? #2

(O artigo a seguir também foi escrito para o jornal Floripa Total. Sua versão digital está aqui.)

No artigo anterior, começamos a falar dos aromas contidos numa taça de vinho, e o que esperar dos nossos fermentados prediletos. Pois muito bem. Os dois elementos fundamentais na determinação dos aromas de um vinho são a uva, obviamente, e a madeira das barricas em que são envelhecidos. E entre esses dois elementos, as possibilidades são, virtualmente, infinitas, dependendo da maior ou menor participação de cada um deles no resultado final. Claro está que há castas mais aromáticas que outras, assim como há diferentes madeiras com que se construir uma barrica. E há mesmo aqueles vinhos que não passam pela madeira.


O sentido do olfato é, sabidamente, um dos mais evocativos entre os humanos. Quem nunca fez uma "viagem" ao passado ao sentir algum perfume que lembrou aquela tia elegante ou a namoradinha da adolescência? A isso os especialistas chamam "memória olfativa", coisa que é peculiar a cada pessoa. Cada qual percebe os aromas de forma diferente e tem um "arquivo" de memórias específico para associar a cada perfume.


Esta é uma das explicações para não reconhecermos necessariamente a mesma coisa quando alguém, levando um copo de vinho ao nariz, afirma reconhecer "aromas tostados com notas de tabaco", ou "notas de frutas brancas e frutas tropicais com suaves toques herbáceos". Se não identificamos nada disso, várias podem ser as razões. Entre elas, o fato de que nossa memória olfativa aponta em outra direção. Outra razão é a falta de "treino" para identificar diferentes nuanças.


Claro que também há exageros. Entre os amigos que tomamos vinhos juntos, sempre nos lembramos da cronista que listava dezoito aromas numa taça de vinho a uma simples "fungada". E mais. Entre esses, identificava aromas de "mirtilo envolto em negro chocolate". Não é lindo?


Exageros como esse serão encontrados a cada momento, mas não devem ser considerados. Como a degustação de vinho envolve prazer, e como os aromas contribuem para a ampliação do prazer, é este o foco que se deve ter. A preocupação é identificar bons aromas em uma taça de vinho para ampliar o prazer da degustação. Esnobismo e exagero fiquem com quem quiser.


Entretanto, mesmo com uma imensa variedade, cada tipo de uva aponta, com frequencia, para certos aromas preferenciais. Por exemplo, é comum ser encontrado, tipicamente, o aroma de abacaxi nos vinhos feitos com a uva Chardonnay em regiões não muito frias. Assim também, ao se sentirem aromas tostados ou defumados em um vinho, quase se pode apostar que passou um tempo em madeira.


Com isso quero dizer que, com certo treino, os aromas mais característicos podem ser identificados e alguns tipos de vinho podem ser reconhecidos, às cegas, apenas pelos aromas que exalam, por quem se treinou para tal. Deve-se ter em mente também que as experiências aromáticas contidas em um vinho podem ser comunicadas, assim como sua sugestão pode influenciar a percepção de outras pessoas.


Entretanto, mesmo com todas as 'armadilhas' possíveis, a apreciação aromática ainda é um dos primeiros e maiores prazeres que se pode ter diante de um copo de vinho. Daí porque eu afirmava que não se deve contentar com os odores óbvios de álcool e uva passada. Sendo tantas e tão maravilhosas as possibilidades aromáticas, por que não aprender a explorá-las com calma, paciência, humildade e pertinácia? Só podemos ganhar com isso.


Muito bem. Falamos de aromas agradáveis. Mas é possível identificar também aromas desagradáveis em um vinho. E isso, quase sempre aponta para defeitos em sua elaboração ou conservação. É possível haver em um vinho notas de suor de cavalo, pelos, peles, couro, gorduras, vísceras, fumo, carne, azedo, esgoto e outras, classificadas como 'animais'. Todas são originadas pelos mesmos microorganismos nocivos capazes de desenvolver patologias no vinho. Daí porque, ao identificar um desses cheiros, quase sempre se está em presença de um vinho deteriorado. Convém tomar cuidado e pedir a opinião de alguém com mais experiência. Afinal, uma das funções do sentido do olfato não é prevenir contra alimentos inadequados ao consumo? É raro, mas também pode acontecer com vinhos.


Finalmente, tratemos de um comportamento muito comum e muito difundido entre os menos avisados: o que fazer quando o garçom abre o vinho e põe a rolha na mesa?


Não espera que você a cheire para verificar evidências de mofo. Isso é raro hoje em dia. Além disso, quando serve pequena porção para a sua aprovação, girar e cheirar o vinho dirá tudo o que se deve saber.


Em lugar da rolha, cheire o copo antes de servirem o vinho. Se ele tiver cheiro de sabão, ou de qualquer outra coisa - copo limpo não tem cheiro -, peça outro copo. No máximo, dê uma olhada geral na rolha, para ver se está molhada até, no máximo, a metade. Isso quer dizer que a garrafa foi guardada apropriadamente, com a rolha sendo constantemente molhada para uma selagem hermética.


Com isso, vamos encerrando o papo por hoje. O assunto está longe de ser esgotado, mas meu espaço não. Até a próxima ocasião.

Terça-feira, Maio 19, 2009

Aceita uma taça de vinho?

(O artigo a seguir foi escrito para o jornal Floripa Total. Sua versão digital está aqui.)


A cada instante aumenta, no Brasil, o número de consumidores de vinho. Junto aos que sabem o que querem, há um imenso batalhão daqueles que não têm a menor idéia do que beber e reforçam, com seu desconhecimento, as estratégias dos “espertalhões de sempre”, dispostos a empurrar qualquer coisa nos incautos. Isso se torna mais evidente em períodos de festa como nos finais de ano. O que mais se vê são pessoas comprando verdadeiros venenos pelas mais diferentes razões. Uma delas é, obviamente, o preço, mas nem só.


Entre os que não sabem o que comprar, existem aqueles que imaginam a arte de tomar um bom vinho um segredo somente revelado a alguns poucos “iluminados”. Nada mais falso, ainda que existam certas regras simples que facilitariam a vida de todos, se divulgadas com mais clareza e mais constância.


A partir deste artigo, pretendo desenvolver algumas dessas regrinhas e discutir as qualidades de alguns dos vinhos disponíveis no nosso (pobre) comércio. No processo, espero ser útil a quem queira compartilhar do meu prazer, da mesma forma como espero aprender muito com a interação que se estabelecer.


No jantar deste reveillon, tive a oportunidade de formalizar uma das mais básicas regras para quem quer se aventurar na degustação de vinhos. Confrontado com a inevitável questão de “como escolher um bom vinho”, e num ambiente que não comportaria uma aula de enogastronomia, tive que resumir a resposta a uma frase simples: “- Prove-o. Se ele agradar ao seu paladar, é bom para você”. É claro que foi uma resposta simplista e para me livrar de uma conversa chata, que se estenderia sem proveito, mas que não deixa de ter alguma relevância. E ela vai me servir para começar a série de abordagens que pretendo fazer.


Vamos, portanto, esmiuçar a tal afirmação. Ninguém deve comer ou beber algo que lhe seja desagradável, apenas para agradar ou impressionar outras pessoas. Aqui começa, portanto, a fazer sentido a minha resposta. Algumas pessoas preferem os vinhos brancos, outras os tintos, outras ainda, os vinhos adocicados, e a lista é interminável, como interminável é o universo de vinhos. Vou encaixar aqui uma informação curiosa, só para ilustrar como essa variedade é imensa: uma pessoa que viva até os 100 anos, o que podemos considerar bastante coisa, e que beba desde a idade legal, passará toda a sua vida sem conseguir provar todos os tipos existentes de vinho, mesmo que prove um diferente por dia! Já se vê que a “tarefa” é árdua...


Voltemos, entretanto, à nossa pequena afirmação. Pode parecer óbvio, mas é exatamente aqui que começa toda a “encrenca”. Escolha, portanto, algo que seja agradável ao seu paladar. Depois disso, é interessante fazer-se a pergunta “Por que eu gostei deste vinho em particular?” A resposta é que vai começar a torná-lo um bebedor consciente. Por falar nisso, é bom deixar claro que não me ocuparei das pessoas que bebem para ficar bêbadas. Sim, elas existem, mas podem ficar intoxicadas com vodka, cachaça, uísque ou água de bateria. Elas não me interessam. Quem bebe vinho e por prazer, encara a bebida de uma forma completamente diferente.


A resposta à pergunta básica formulada acima poderá ser mais extensa ou mais direta, dependendo de quanto a pessoa pretende se aprofundar. E isso é outra obviedade gritante, mas que precisa ser registrada. Como eu disse antes, na tal festa eu não estava com disposição de me alongar em uma situação em que meu interesse maior era aproveitar a bebida e a companhia dos amigos e parentes. Em outra circunstância, talvez eu fosse mais prolixo e talvez perdesse a oportunidade de desenvolver este artigo.


Algumas respostas muito comuns à tal pergunta, aparentemente singela, levam à discussão do sistema sensorial humano, o que seria muito chato e, certamente, escaparia da minha modesta pretensão. Outras, entretanto, poderão nos levar a terreno fértil. Por exemplo, “- Gostei deste vinho por causa de seu aroma”. Bingo! Um dos primeiros contatos que podemos ter com o conteúdo de uma boa garrafa de vinho se dá através dos aromas que percebemos. E aqui vem uma das regrinhas elementares que é preciso deixar registrada: Um bom vinho não deve ter como aroma predominante, nem o de álcool e nem o de suco de uva! Mais uma vez, isso não é uma regra inviolável, e gosto é gosto. Mas, à medida em que a pessoa vai sofisticando o seu paladar e, portanto, o seu discernimento a respeito do que gosta de beber, mais vai percebendo que outras pessoas que também sabem o que querem beber, gostam de coisas parecidas. E esta é uma das razões de o iniciante imaginar que os bebedores de vinho se fecham em “confrarias secretas”, não acessíveis aos mortais comuns. Até tem gente que tenta isso, o que logo se revela tolice e esnobismo.


Os aromas emanados de um copo de bom vinho são tantos, tão sutis, complexos e agradáveis, que a última coisa que se quer sentir são odores óbvios e predominantes. Mas isso é assunto para o próximo artigo, pois já cheguei ao fim do meu espaço. Até lá, portanto.

Sábado, Maio 02, 2009

A história do gato

Sussurrada, gritada ou pronunciada normalmente, a pergunta sempre a acompanhou, desde que saiu da adolescência.

- Quem é esta moça? - Alguém sempre perguntava à sua passagem. Impossível evitar.

Linda. Um único e curto adjetivo para resumir o que encantava quem a visse, a ponto de ninguém conseguir ficar indiferente, não importa o sexo. Pele muito alva, contrastando agradavelmente com os olhos e cabelos negros como a asa da graúna.

Um quê de mistério e de tristeza no sorriso que não passava de um ligeiro levantar dos cantos da boca, acompanhado, invariavelmente, de um olhar para o chão.

Não tinha muitas amizades. Casou-se cedo, com um homem mais velho. Um industrial bem sucedido, absolutamente apaixonado, que não poupava esforços para adivinhar e realizar-lhe os menores desejos. Nunca fora apaixonada. A escolha havia partido da família, sim, mas também fora encaminhada pelo desinteresse que os homens lhe provocavam, especialmente os rapazes de sua idade, muito superficiais.

Não tinha grandes ambições, mas não desdenhava o conforto. E sabia, como ninguém, valorizar o efeito provocado por uma bela jóia usada sobre um vestido exclusivo. Brilhava nas festas a que era levada como um troféu a ser exibido, mas saía delas, invariavelmente, cedo, entediada.

Com o passar do tempo, o sucesso de seu marido passou a absorver partes cada vez mais consideráveis do tempo antes dedicado a ela. Começaram a diminuir as primaveras passadas em Paris, os verões em Acapulco, os outonos em Buenos Aires. Não se importava. Nunca gostara de tais cidades nem da frívola badalacão ao seu redor.

A fria beleza da juventude apenas se acentuou com a chegada da plenitude da maturidade. Os mesmos cabelos negros emoldurando um rosto surpreendentemente claro, os mesmos olhos sugando os olhares como buracos negros. Assim o mistério e a tristeza do sorriso. E um sentimento de insatisfação consigo mesma que não diminuiu com a idade, ao contrário, parecia acentuar-se a cada dia.

Sentada em um café, certa tarde tediosa, passeava aquele negro olhar pela calçada, quando notou um casal entrando, furtivamente, no hotel do outro lado da rua. Aquilo despertou-lhe a curiosidade e, quando não havia mais como estender sua presença no café, transferiu-se para o restaurante do hotel, onde pediu um martini. Ali ficou na sua vigília até que percebeu o mesmo casal saindo, cada qual para um lado, dissimulando o relacionamento.

Uma sensação que não tentou explicar tomou conta de seu espírito. Pela primeira vez em anos demonstrava interesse por algo ou alguém. Neste caso, por uma situação de perversa clandestinidade. Voltou para casa sem conseguir deixar de pensar na situação que testemunhara. No dia seguinte, voltou ao hotel e notou outros casais e comportamentos semelhantes. Sorriu por nunca antes haver percebido tais encontros reservados.

Nos próximos dias aquilo passou a ser uma obsessão. Recriminou-se por tão mórbida curiosidade pelo comportamento alheio, mas não conseguiu deixar de se interessar. Viajou a uma cidadezinha próxima, onde comprou uma peruca clara, algumas roupas de gosto não muito refinado, uma mala discreta e guardou tudo no porta-malas do seu carro.

A idéia que tomava forma deixou-a febril e inquieta. Por alguns dias ficou de cama, despertando cuidados do marido que atribuiu aquilo a alguma virose não identificada. Uns dias de repouso e uma alimentação reforçada resolveriam o caso.

Quando tornou a sair de casa o fez com o planejamento completo. Dirigiu até um estacionamento fechado no centro da cidade, trocou de roupas, colocou a peruca, óculos escuros, pegou um taxi e foi para um hotel de luxo, do outro lado da cidade. Não demorou a ser abordada. Silenciosa, acompanhou o homem ao seu quarto.

À hora do jantar já estava em casa, com a impassividade e classe de sempre. Intimamente sentia-se viva. Sentia que algo que não conhecera estava se descortinando para ela. E todas as tardes repetia o roteiro e o ritual, variando de hotel e nunca repetindo um parceiro. Acreditava estar sendo cuidadosa e discreta como sempre.

Certo domingo em que os empregados da casa estavam de folga, encontrou o marido sentado na poltrona do escritório, olhar vitrificado, vítima de fulminante ataque cardíaco. Aos seus pés, espalhadas pelo tapete persa, dezenas de fotografias de uma mulher loira, de óculos escuros e roupas vulgares, com diferentes acompanhantes. Junto estava um relatório detalhado dos seus passos nas últimas semanas.

A culpa, a vergonha e o arrependimento não lhe permitiram derramar uma lágrima sequer. Assim que as providências com o enterro e destruição das fotografias foram tomadas, simplesmente abandonou tudo e desapareceu, mudando-se para uma distante e pequena casa de janelas verdes em uma vizinhança discreta de pessoas simples e honestas.

Na casa havia um gato e um tapete gasto. Nunca gostara de gatos, mas ele parecia tê-la escolhido. Deixou que por ali ficasse pelos anos seguintes, muda testemunha de uma vida sem sentido.

Quinta-feira, Abril 09, 2009

O telegrama

Viver na província sempre trouxe dificuldades que, muitas vezes, as pessoas nem consideravam, tal era o orgulho de, vez por outra, ir à Metrópole para tomar um "banho de civilização". Muita coisa permanece igual, e as pessoas nem notam, mas já foi pior. Um simples livro, por exemplo, tinha que ser encomendado no Rio e levava uma vida para chegar às mãos do ansioso leitor. Assim muitas outras pequenas e corriqueiras necessidades não tinham como ser cumpridas nas cidades do interior do país.

Isso sempre gerou os tipos "deslumbrados" e sua contrapartida, os espertalhões. Muito fazendeiro de bolso cheio e cabeça vazia comprou o Pão de Açúcar ou, mais modesto, um prosaico bonde para passear entre o gado. O folclore se encarregava de ampliar as pequenas mancadas que os "Jecas Tatus" cometiam na cidade grande, transformando-as em peças bem acabadas do anedotário nacional. Era um tempo mais ingênuo em que a esperteza ocupava o espaço que hoje é da violência.

Assim como as mulheres não deveriam ir sozinhas ao Rio, sob pena de adquirirem reputação não muito louvável, todas as mães recomendavam aos filhos que colocassem o dinheiro na cueca, não conversassem com estranhos e não deixassem as ciganas lerem suas mãos. Mero desencargo de consciência, pois era muito freqüente a chegada de um aflito telegrama pedindo dinheiro para a passagem de volta de uma envergonhada vítima do conto do vigário ou, mais constrangedor, do conto do suadouro. Ou ainda, na ala feminina, um comunicado da chegada de um "herdeiro" não previsto.

Sim, minha senhora, leu direito: telegrama! Uma instituição que está desaparecendo frente à multiplicidade de meios instantâneos de comunicação. Hoje a comunicação é muito fácil, mas as pessoas têm cada vez menos coisas interessantes a comunicar. Naquele tempo, receber um telegrama no portão de casa, das mãos de um estafeta uniformizado era uma distinção na vizinhança. Telegramas não serviam apenas para comunicar morte ou cumprimentar noivos. Traziam as notícias mais variadas, especialmente, aquelas relacionadas às viagens e sua chegada. Mas os telegramas não primavam pela reserva e sigilo. Eram mais ou menos públicos, pois o operador do telégrafo tinha que decodificar os pontos e traços em letras e frases, depois alguém datilografava aquilo que era entregue ao destinatário. Daí vazamentos "inexplicáveis".

Anita era recém-casada e morava em uma cidadezinha do interior de Minas. Depois de uma certa viagem ao Rio, durante muito tempo, foi olhada de soslaio pelas fofoqueiras de plantão e pelas carolas de sempre, em razão da ambiguidade de um telegrama mandado aos pais, ao final da aventura.

A viagem teve a ver com as dificuldades de satisfação local das pequenas necessidades rotineiras. Em um tempo em que as roupas eram feitas, por encomenda, pelas costureiras e alfaiates, saber costurar era garantia de uma fonte extra de recursos, muitas vezes até, a principal.

Pensando nisso e no prestígio, Anita decidiu ir ao Rio para fazer um moderno e diferente curso de corte e costura que vira anunciado em página inteira de uma revista semanal muito popular na época. Os preparativos foram do conhecimento de boa parte da cidadezinha carente de assuntos mais palpitantes. A divulgação de tal evento cumpria também uma função de marketing estratégico. Embora a expressão ainda não existisse, com certeza, teria boa clientela uma costureira "formada" no Rio. Muito chique!

Francisco, seu marido, esforçado caixeiro viajante, combinou de buscá-la ao final do curso, ocasião em que aproveitaria uma visita à matriz para levar a esposa a conhecer os pontos turísticos da então Capital Nacional.

E lá se foi o "projeto de Dior", em busca do sucesso. Só que Anita não era, digamos, nenhum prodígio de habilidade e inteligência. E não foi aprovada no tal curso. Frustrada, esperou por alguns dias a prometida chegada do maridão, mas em função da sua demora, decidiu voltar para casa e passou um telegrama, a fim de avisar os parentes. Na tentativa de ser o mais sucinta possível, de comunicar o máximo com o mínimo de palavras, pois telegramas, além de tudo, eram caros, não reparou na ambiguidade do que escreveu e que "vazou" por toda a cidade:

Tomei pau no corte pt
Chico não veio pt
Parto breve pt


Na volta, até explicar que Carolina de Sá Leitão não é o mesmo que caçarolinha de assar leitão, foi uma dificuldade...

Domingo, Março 08, 2009

Ferrari

O que queremos e o que podemos ter são coisas completamente diferentes, isso não é novidade para ninguém. Um pouco mais sutil, entretanto, é a diferença entre o que achamos que queremos e o que achamos que não podemos ter. Embora as combinações semânticas possam se alongar por páginas e páginas, ficarei apenas com essas duas variações, para o que acordei hoje com vontade de discutir, com a finalidade de procurar entender.

Num extremo meramente ilustrativo, eu gostaria, por exemplo, de ter vinte anos, com a percepção do mundo que tenho hoje. Impossível em todos os planos, claro. O que significa que esse tipo de desejo não me deixa nenhuma angústia.

Em outro extremo, também ridiculamente didático, não há nenhuma razão real para que eu não tenha, de uma vez, aquela coleção de DVDs do 007 que estou montando aos poucos. Apenas o que me impede de fazê-lo é que, assim que todos os filmes estiverem em minha estante, não haverá mais o prazer em acompanhar os lançamentos, cobiçar aquele novo título, garimpar o melhor preço do mercado e, finalmente, acariciar-me o ego com sua aquisição. Afinal, um dos maiores prazeres de uma coleção não é completá-la, mas montá-la. Não é o fim, mas o meio. Também não há angústia aqui.

Entre esses dois extremos, entretanto, é que as coisas se complicam. Sempre temos que fazer opções, avaliar o impacto de certos gestos impulsivos e seu desdobramento em outras áreas da nossa existência. Essa busca de equilíbrio, conceito etéreo que nem sempre conseguimos passar aos nossos filhos, nem sempre é tão difícil de ser conseguida. Implica, é claro, em uma constante avaliação de nossas reais necessidades e do preço que estamos dispostos a pagar por certas conquistas.


Um estagiário, dia desses, me deu exemplos concretos de tais aparentes contradições. Chamou-me para ver as fotografias das Ferraris que estão veraneando na ilha. Ele e o amigo tiveram o trabalho de ir à praia em que estão sendo "exibidas", apenas para admirá-las e fotografá-las, deslumbrados. Aquela manifestação que me deu uma impressão inicial de futilidade, entretanto, logo se diluiu, com os comentários que ele mesmo fez. E nisso me surpreendeu pela maturidade que não esperava encontrar.

Resumindo, o garoto estava completamente fascinado, hipnotizado mesmo, com as máquinas, seu desempenho, formas e cores. Tinha dúzias de fotos de detalhes dos carros em diferentes situações. Mas, ao mesmo tempo em que demonstrava tal fascinação pelos objetos, manifestou completo desprezo pelos abobados proprietários. Comentou, entre outras coisas que "não pode haver honestidade por trás de tamanha exibição"; mencionou também que os carros nunca poderiam ficar guardados na garagem, pois "senão, ninguém os veria"; por fim, afirmou que o máximo que gostaria de ter daquelas máquinas eram as fotografias que conseguira, pois não gostaria de ser escravo de um veículo que não pode ser usado para as funções normais de um carro.

Fiquei então pensando nas muitas opções que temos na vida e em como, nem sempre, temos a clareza devida no momento de exercê-las. Quantas vezes não fazemos uma ou outra escolha equivocada, quase sempre, movidos por paixão, compaixão ou carência? Quantas vezes não nos questionamos a respeito desta ou daquela escolha, conquista ou aquisição, não mais encontrando o sentido que nos conduziu a ela, originalmente?

E com tudo isso, volta à mente a percepção zen de que há muito tempo não falo. "Consulte-se com sua morte. O que ela considerar importante para ela, será para você", era mais ou menos o conselho de D. Juan para Carlito. Conselho que continua cada vez mais válido. Certas aquisições não valem ou não justificam seu preço. E não só no campo material.

O assunto será retomado. Talvez.

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

As abotoaduras do passado


Seu nome era Marília Bertazzo. Eu sempre brincava com ela perguntando se era parente do Bertaso personagem do Veríssimo, mas ela não ria. Nosso senso de humor não tinha pontos em comum.

Nunca vi um corpo tão branco e nem tão frágil como o dela. Eu sempre temia magoá-la de alguma forma, mas ela respondia com um desempenho e entusiasmo incomparáveis. Varávamos noites na doce luta e, na manhã seguinte, era necessária uma quantidade imensa de café para manter-me desperto e ativo nas tediosas reuniões que me levavam ao Sul a cada quinze dias. Eu dizia que ela iria me provocar gastrite, mas ela não ria disso também.

Naquele tempo eu devo ter conhecido todos os hotéis da cidade, pois, para ficar comigo, ela se recusava a voltar ao mesmo hotel. Dizia que, como tinha que trabalhar e morar ali, não queria ficar conhecida dos empregados de hotel. Entretanto, nunca me convidou para a sua casa, da mesma forma como nunca me visitou na minha. Sabia que, apesar de morar na praia, eu praticamente só ia a casa para trocar o conteúdo da mala. Tanto viajei naquele período que, quando me aposentei, nunca mais saí daqui.

Depois de um certo tempo daqueles nossos deliciosos encontros quinzenais, descompromissados, ela começou com a inevitável conversa de que queria ter um filho meu. Não precisávamos nos casar, não precisávamos mudar nada. Só queria um filho meu e pronto. Mais dia, menos dia, as mulheres sempre sentem despertar seu sentimento maternal. Também nessas circunstâncias eu brincava, parodiando Machado, e dizia que não queria deixar a ninguém o legado da minha miséria. Claro que ela não ria. Nunca soube se ela não entendia minhas tiradas ou se, simplesmente, não achava graça nelas. Acredito mais na segunda hipótese.

As horas se passavam enquanto ela me olhava, carinhosa, com aqueles grandes olhos azuis varridos por imensos cílios castanhos, enfiando os dedos de unhas curtas mas bem cuidadas entre os pelos do meu peito, enquanto manifestava sua fantasia em outros termos, tentando derrubar as barreiras automáticas que eu erguia. Tamanha obsessão me deixava incomodado e eu lhe dizia isso sem muito cuidado.

Foi numa noite de agosto especialmente ventoso e atormentado que ela me disse ter uma boa notícia para me dar: havia interrompido as pílulas e, finalmente, estava grávida. Eu estava de parabéns!

Não pude conter uma gargalhada alta e insultosa, inteiramente fora dos meus hábitos contidos. Disse-lhe, sem poupar palavras rudes, que aquele tipo de golpe não funcionaria comigo, uma vez que, além de ter uma contagem de espermatozóides extremamente baixa, havia feito vasectomia no tempo em que morei na Itália.

Ela não discutiu, não argumentou. Apenas olhou-me por algum tempo com os olhos marejados, vestiu a roupa, recolheu uma pequena caixa azul que estava na penteadeira e deixou o hotel e minha vida. No dia seguinte, demiti-me do projeto que, confortavelmente, sempre me levava ali, e nunca mais voltei.

Sua imagem e nossa história foram esquecidas, soterradas sob a bagatela que acumulei por tantos anos, até que hoje retornaram com todo o frescor, quando recebi a visita de um homem de aparência familiar e grandes olhos azuis varridos por imensos cílios castanhos. Subitamente, descobri que ele era idêntico a mim quando tinha sua idade, apenas contemplado com os belos olhos da mãe.

Disse que seu nome era Alberto Bertazzo, que não era parente de nenhum Bertaso personagem do Veríssimo, e que me trazia uma caixinha com par de abotoaduras, satisfazendo o último desejo de sua mãe, que se fora na semana anterior. Não ri da troça com o sobrenome. Descobri, muito tarde, que não tem a menor graça. Sério e desajeitado, agradeci, escondendo da melhor maneira que pude o nó que me bloqueava a garganta. Assim que ele se foi, guardei-as numa caixa de papelão, junto com as outras quinquilharias que os velhos guardam sem motivo. Afinal, hoje em dia, ninguém mais usa abotoaduras, muito menos eu, que nunca saio do asilo.