Sexta-feira, Janeiro 16, 2009

Luc entediado


O telefone tocou cedo. Mesmo sem ter motivo, assustei-me com seu barulho que estava mais estridente e nervoso que nunca. Não podia ser bom sinal. Atendi. Do outro lado, uma voz conhecida nem cumprimentou e já foi falando:

- E aí, Mané? Vamos à praia?

Era o Diabo. Ele sempre me chamava de Mané. É um direito dele.

- Não! Não gosto de praia e não tenho tempo. Respondi azedo, tentando encurtar a conversa.

- Qual é? Já viu o sol que abriu hoje? Já imaginou as gatas que estarão por lá? Retrucou Satanás, já ao meu lado, com sua voz suave e envolvente.

Eu não ia me livrar dele tão facilmente. Na verdade, nem tinha razão para tal. Larguei o telefone e abri as janelas para olhar o dia que ele anunciava tão bonito. Uma claridade forte, cegante, bateu em cheio no meu rosto, trazendo um calor que deveria durar bastante, a julgar pela direção dos ventos.

- Tenho que ir ao banco pagar algumas contas e retirar dinheiro para passar a semana.

- Beleza! Vou junto. É o meu segundo lugar predileto, você sabe.

- Eu não sei de nada!

- De fato, mas faz pose de quem sabe, e até ganha a vida com essa pose.

Claro que ele estava certo. Ele sempre está certo e não adianta polemizar. Saímos caminhando, eu procurando as sombras e ele, o sol. Pensei em quanto é inadequado seu apelido de "Príncipe das Trevas".

- Isso foram os amigos que inventaram para me bajular. Não ligo! Respondeu ele, lendo meus pensamentos.

- Detesto quando você faz isso!

Ele riu e não respondeu. Passamos por uma banca de jornal. Não demonstrei interesse e ele me perguntou:

- Não quer saber das notícias?

- Não! Além disso, tenho certeza de que você vai, de qualquer maneira, me informar.

- Estamos azedos hoje, não?

- Tem razão! Não é necessário. Paga-me um café?

Encostados no balcão da padaria, enquanto observávamos a mulher de braços curtos e roliços atrapalhar-se toda com xícaras, pires, pinças e águas ferventes, passou ao meu lado, quase roçando o braço no meu, uma jovem lambendo sensualmente um picolé e me olhando de esguelha. Enquanto apreciava automática e deliciosamente a pele morena coberta de fina penugem alourada e mal contida pela exígua roupa - se é que ainda se pode chamar roupa aqueles poucos trapos que mais mostravam que ocultavam - Lúcifer disse:

- Vai lá, cara! Ela está louquinha por você!

- É muita areia pro meu caminhãozinho. Além do mais, sei que isso é coisa sua.

- Não se pode condenar o cidadão por tentar! Retrucou ele, com uma gargalhada sonora que fez tilintar as xícaras na mão da mulher dos braços curtos.

- E aí, Luc? O que veio fazer por esses lados? Perguntei, usando o apodo que sabia que ele detestava.

- Estava entediado e resolvi vê-lo, conversar um pouco, tomar um cafezinho... Aliás, como é ruim o café desta sua padaria... Tem gosto de enxofre!

- A padaria não é minha. E o gosto de enxofre deve ser impressão sua. Ossos do ofício, pode-se dizer...

- Ah! Mas você já deveria me conhecer bem a ponto de saber que esses estereótipos estão longe da realidade. Por exemplo, você está vendo algum pé de bode calçando estes caríssimos tênis com amortecimento? Toma tento, rapaz!

- "Toma tento" é antigo, não? Tentei ironizar.

- Eu sou antigo! Já esqueceu? Estou por aí desde que Deus criou o mundo e foi descansar. Arrendei a "encrenca" e, a partir daí, eu é que não descansei mais!

- Arrendou?

- É! Não sabe que meu Pai "terceirizou" o mundo assim que o terminou? Aliás, dizem que houve um certo superfaturamento na obra, mas ninguém se preocupou em apurar. Como Ele preferia descansar, e como Seu descanso é eterno, resolvi assumir a administração e exploração deste brinquedinho.

- Mas então, Deus...

- Não está nem aí! Enquanto receber em dia a Sua cota, Ele aqui nem aparece. Aliás, eu mesmo, raramente venho. Também eu, há tempos, ando sub-terceirizando...

- Como assim?

- Acorda, Mané! Passei tudo para uns carinhas que criaram um monte de religiões. Os pregadores de cada uma delas são meus representantes, meus franqueados. Já viu como são cruéis, sanguinários e ambiciosos? Muito me orgulho de cada um. E eles ainda têm um marketing invencível: Tudo o que fazem, qualquer atrocidade que cometem, é "em nome de Deus"! Com isso, eu fico na minha...

- Não é assim como você diz. São pessoas caridosas e que se preocupam com a salvação de seus seguidores. Tentei argumentar.

- Tá! Vamos deixar assim. Mas procure se informar sobre quantos povos foram e continuam sendo dizimados, simplesmente por acreditarem em uma versão diferente de Deus ou em um certo número de deuses. A religião e o dinheiro são as duas invenções de que mais me orgulho! O que uma começa, a outra termina...

- Cara! Como você é chato e pretensioso. Gostaria que não viesse me ver quando estiver, novamente, entediado. Vá procurar a sua turma...

- E eu vou mesmo. Aliás, arrependi-me de vir vê-lo. Você é que está cada vez mais chato e ingênuo. Vou pra casa!

- Pra casa? Mas onde é a sua casa? Você não disse que aquele lance de pé de bode e cheiro de enxofre era estereótipo? Quer dizer que existe mesmo um inferno subterrâneo cheio de capetinhas?

- Não mais. Atualmente está tudo mais fácil. Hoje eu moro na Faixa de Gaza... Os dois lados trabalham para mim.