Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

As abotoaduras do passado


Seu nome era Marília Bertazzo. Eu sempre brincava com ela perguntando se era parente do Bertaso personagem do Veríssimo, mas ela não ria. Nosso senso de humor não tinha pontos em comum.

Nunca vi um corpo tão branco e nem tão frágil como o dela. Eu sempre temia magoá-la de alguma forma, mas ela respondia com um desempenho e entusiasmo incomparáveis. Varávamos noites na doce luta e, na manhã seguinte, era necessária uma quantidade imensa de café para manter-me desperto e ativo nas tediosas reuniões que me levavam ao Sul a cada quinze dias. Eu dizia que ela iria me provocar gastrite, mas ela não ria disso também.

Naquele tempo eu devo ter conhecido todos os hotéis da cidade, pois, para ficar comigo, ela se recusava a voltar ao mesmo hotel. Dizia que, como tinha que trabalhar e morar ali, não queria ficar conhecida dos empregados de hotel. Entretanto, nunca me convidou para a sua casa, da mesma forma como nunca me visitou na minha. Sabia que, apesar de morar na praia, eu praticamente só ia a casa para trocar o conteúdo da mala. Tanto viajei naquele período que, quando me aposentei, nunca mais saí daqui.

Depois de um certo tempo daqueles nossos deliciosos encontros quinzenais, descompromissados, ela começou com a inevitável conversa de que queria ter um filho meu. Não precisávamos nos casar, não precisávamos mudar nada. Só queria um filho meu e pronto. Mais dia, menos dia, as mulheres sempre sentem despertar seu sentimento maternal. Também nessas circunstâncias eu brincava, parodiando Machado, e dizia que não queria deixar a ninguém o legado da minha miséria. Claro que ela não ria. Nunca soube se ela não entendia minhas tiradas ou se, simplesmente, não achava graça nelas. Acredito mais na segunda hipótese.

As horas se passavam enquanto ela me olhava, carinhosa, com aqueles grandes olhos azuis varridos por imensos cílios castanhos, enfiando os dedos de unhas curtas mas bem cuidadas entre os pelos do meu peito, enquanto manifestava sua fantasia em outros termos, tentando derrubar as barreiras automáticas que eu erguia. Tamanha obsessão me deixava incomodado e eu lhe dizia isso sem muito cuidado.

Foi numa noite de agosto especialmente ventoso e atormentado que ela me disse ter uma boa notícia para me dar: havia interrompido as pílulas e, finalmente, estava grávida. Eu estava de parabéns!

Não pude conter uma gargalhada alta e insultosa, inteiramente fora dos meus hábitos contidos. Disse-lhe, sem poupar palavras rudes, que aquele tipo de golpe não funcionaria comigo, uma vez que, além de ter uma contagem de espermatozóides extremamente baixa, havia feito vasectomia no tempo em que morei na Itália.

Ela não discutiu, não argumentou. Apenas olhou-me por algum tempo com os olhos marejados, vestiu a roupa, recolheu uma pequena caixa azul que estava na penteadeira e deixou o hotel e minha vida. No dia seguinte, demiti-me do projeto que, confortavelmente, sempre me levava ali, e nunca mais voltei.

Sua imagem e nossa história foram esquecidas, soterradas sob a bagatela que acumulei por tantos anos, até que hoje retornaram com todo o frescor, quando recebi a visita de um homem de aparência familiar e grandes olhos azuis varridos por imensos cílios castanhos. Subitamente, descobri que ele era idêntico a mim quando tinha sua idade, apenas contemplado com os belos olhos da mãe.

Disse que seu nome era Alberto Bertazzo, que não era parente de nenhum Bertaso personagem do Veríssimo, e que me trazia uma caixinha com par de abotoaduras, satisfazendo o último desejo de sua mãe, que se fora na semana anterior. Não ri da troça com o sobrenome. Descobri, muito tarde, que não tem a menor graça. Sério e desajeitado, agradeci, escondendo da melhor maneira que pude o nó que me bloqueava a garganta. Assim que ele se foi, guardei-as numa caixa de papelão, junto com as outras quinquilharias que os velhos guardam sem motivo. Afinal, hoje em dia, ninguém mais usa abotoaduras, muito menos eu, que nunca saio do asilo.