Sábado, Fevereiro 07, 2009

Motorista

Cabeça inteiramente branca, precocemente, não foi só contra esta característica hereditária que Henriqueta desistiu de se debater. Abriu mão de outras atividades que, mais que soluções, traziam problemas e estresse. Só não desiste de manter a casa sempre cheia. E o que de melhor as pessoas fazem quando se reúnem? - Contam casos, relembram vivências, compartilham.

Uma das coisas de que Henriqueta desistiu, para alívio de parentes, amigos e seguradoras, foi de dirigir. Com uma melhor administração do seu tempo e um mais eficiente conhecimento dos horários dos coletivos, ela se equilibra satisfatoriamente entre suas obrigações. Além do mais, à medida em que as filhas foram chegando à idade de dirigir, a elas foram sendo passadas algumas das atribuições de que desistiu. E as suas aventuras automobilísticas são revividas para efeitos de diversão ou exorcismo.

Embora necessitando se deslocar com independência, ela sempre teve uma incompatibilidade visceral com as rodas, volantes e pedais. Uma lista das barbaridades que cometeu no papel de motorista encheria páginas e páginas, sem se repetir. Quando saía para trabalhar, sempre o fazia algumas horas antes do necessário, pois precisava chegar ao centro antes que o movimento se intensificasse. Um pouco era para não se afobar com o grande número de outros veículos nas ruas, mas também, e mais importante, era para chegar quando ainda conseguisse encontrar uma vaga em um dos raros estacionamentos a quarenta e cinco graus. Não conseguia fazer uma baliza paralela, nem que sua vida dependesse disso. E o nervosismo que advinha das tentativas frustradas refletia-se no seu humor para o resto da semana. Uma lástima!

Seu carro apresentava um novo amassado ou arranhão, a cada vez que ela se aventurava na sua direção. Era reconhecido de longe e quem o via, dele tomava distância prudente. No final da tarde, quando o horário do casal coincidia, era Wagner quem o levava para casa. Uma parada no supermercado para as compras diárias era sagrada. E, por mais lotado que estivesse o estacionamento, ao lado daquela rôta Brasília verde, sempre havia uma ou mais vagas bem espaçosas, o que era muito confortável para quem sabia quem era seu motorista naquele horário.

Entretanto, a desistência de Henriqueta aconteceu mesmo depois do último incêndio. Sim, último, pois aquele veículo parecia ter a capacidade da combustão espontânea. O gasto com recarga do extintor de incêndio era altíssimo naquela família.

Dia daqueles, estresse no pico! Wagner viajando, crianças com atividades simultâneas em pontos distantes, agenda lotada, Henriqueta desempenhava satisfatoriamente ao volante, até o momento de levar a filha mais nova ao recital de dança. Antevia o merecido descanso que teria depois daquele último compromisso, sonhava com um banho demorado e um bom repouso de pernas para cima, a fim de restabelecer a circulação sanguínea.

Cabelinho repuxado em um coque e arrematado por uma tiara brilhante, maquiagem pesada, roupinha justa terminando num saiote armado, meia-calça branca ligada em sapatilhas amarradas canela acima, a menina mal se movia no banco traseiro, com medo de atrapalhar o arranjo de que tanto se orgulhava. E foi também com uma crescente preocupação que começou a sentir um familiar cheiro de queimado vindo da parte traseira. Murmurou, tímida:

- Acho que tem fogo no carro, mãe.

E a mãe nem ouviu, concentrada no que acontecia do lado de fora, no trânsito.

- Fogo, mãe! - repetiu em tom ligeiramente mais forte.

Sem resposta. De repente, pessoas que passavam e viam os novelos de fumaça atrás daquela massa verde começaram a gesticular e a gritar:

- Fogo! Fogo! Fogo!

Henriqueta parou, assustada, no exato momento em que a fumaça começava a tomar conta do interior do veículo. Num ridículo e sistemático gesto, desligou o carro, saiu, trancou a porta do motorista e, só então, correu a gritar, sacudindo os braços acima da cabeça, como aqueles bonecos de posto de gasolina:

- Fogo! Fogo! Fogo!

De dentro do carro, a menina não sabia se chorava, se fechava os olhos para não ver o espetáculo proporcionado pela mãe, ou se se concentrava em não desmanchar o toalete. A custo foi retirada, por populares, do veículo em chamas e levada para a calçada, em segurança. Ainda tossindo, com a fantasia de bailarina suja de graxa e fuligem, percebendo que não dançaria naquele dia, foi com lágrimas nos olhos que viu a mãe se aproximar, muito assustada, olhos arregalados:

- O carro pegou fogo!

- Eu sei, Mãe. Eu estava dentro dele!

Registra a História que este foi o episódio determinante para a decisão de Henriqueta nunca mais dirigir. Nem quando a Brasília do inferno foi trocada por um Passat vermelho. De segunda mão. Pelo menos esta é a versão que a menina, hoje bela mulher, conta para seu psicanalista nas aguardadas sessões semanais.