Domingo, Março 08, 2009

Ferrari

O que queremos e o que podemos ter são coisas completamente diferentes, isso não é novidade para ninguém. Um pouco mais sutil, entretanto, é a diferença entre o que achamos que queremos e o que achamos que não podemos ter. Embora as combinações semânticas possam se alongar por páginas e páginas, ficarei apenas com essas duas variações, para o que acordei hoje com vontade de discutir, com a finalidade de procurar entender.

Num extremo meramente ilustrativo, eu gostaria, por exemplo, de ter vinte anos, com a percepção do mundo que tenho hoje. Impossível em todos os planos, claro. O que significa que esse tipo de desejo não me deixa nenhuma angústia.

Em outro extremo, também ridiculamente didático, não há nenhuma razão real para que eu não tenha, de uma vez, aquela coleção de DVDs do 007 que estou montando aos poucos. Apenas o que me impede de fazê-lo é que, assim que todos os filmes estiverem em minha estante, não haverá mais o prazer em acompanhar os lançamentos, cobiçar aquele novo título, garimpar o melhor preço do mercado e, finalmente, acariciar-me o ego com sua aquisição. Afinal, um dos maiores prazeres de uma coleção não é completá-la, mas montá-la. Não é o fim, mas o meio. Também não há angústia aqui.

Entre esses dois extremos, entretanto, é que as coisas se complicam. Sempre temos que fazer opções, avaliar o impacto de certos gestos impulsivos e seu desdobramento em outras áreas da nossa existência. Essa busca de equilíbrio, conceito etéreo que nem sempre conseguimos passar aos nossos filhos, nem sempre é tão difícil de ser conseguida. Implica, é claro, em uma constante avaliação de nossas reais necessidades e do preço que estamos dispostos a pagar por certas conquistas.


Um estagiário, dia desses, me deu exemplos concretos de tais aparentes contradições. Chamou-me para ver as fotografias das Ferraris que estão veraneando na ilha. Ele e o amigo tiveram o trabalho de ir à praia em que estão sendo "exibidas", apenas para admirá-las e fotografá-las, deslumbrados. Aquela manifestação que me deu uma impressão inicial de futilidade, entretanto, logo se diluiu, com os comentários que ele mesmo fez. E nisso me surpreendeu pela maturidade que não esperava encontrar.

Resumindo, o garoto estava completamente fascinado, hipnotizado mesmo, com as máquinas, seu desempenho, formas e cores. Tinha dúzias de fotos de detalhes dos carros em diferentes situações. Mas, ao mesmo tempo em que demonstrava tal fascinação pelos objetos, manifestou completo desprezo pelos abobados proprietários. Comentou, entre outras coisas que "não pode haver honestidade por trás de tamanha exibição"; mencionou também que os carros nunca poderiam ficar guardados na garagem, pois "senão, ninguém os veria"; por fim, afirmou que o máximo que gostaria de ter daquelas máquinas eram as fotografias que conseguira, pois não gostaria de ser escravo de um veículo que não pode ser usado para as funções normais de um carro.

Fiquei então pensando nas muitas opções que temos na vida e em como, nem sempre, temos a clareza devida no momento de exercê-las. Quantas vezes não fazemos uma ou outra escolha equivocada, quase sempre, movidos por paixão, compaixão ou carência? Quantas vezes não nos questionamos a respeito desta ou daquela escolha, conquista ou aquisição, não mais encontrando o sentido que nos conduziu a ela, originalmente?

E com tudo isso, volta à mente a percepção zen de que há muito tempo não falo. "Consulte-se com sua morte. O que ela considerar importante para ela, será para você", era mais ou menos o conselho de D. Juan para Carlito. Conselho que continua cada vez mais válido. Certas aquisições não valem ou não justificam seu preço. E não só no campo material.

O assunto será retomado. Talvez.