Sábado, Maio 02, 2009

A história do gato

Sussurrada, gritada ou pronunciada normalmente, a pergunta sempre a acompanhou, desde que saiu da adolescência.

- Quem é esta moça? - Alguém sempre perguntava à sua passagem. Impossível evitar.

Linda. Um único e curto adjetivo para resumir o que encantava quem a visse, a ponto de ninguém conseguir ficar indiferente, não importa o sexo. Pele muito alva, contrastando agradavelmente com os olhos e cabelos negros como a asa da graúna.

Um quê de mistério e de tristeza no sorriso que não passava de um ligeiro levantar dos cantos da boca, acompanhado, invariavelmente, de um olhar para o chão.

Não tinha muitas amizades. Casou-se cedo, com um homem mais velho. Um industrial bem sucedido, absolutamente apaixonado, que não poupava esforços para adivinhar e realizar-lhe os menores desejos. Nunca fora apaixonada. A escolha havia partido da família, sim, mas também fora encaminhada pelo desinteresse que os homens lhe provocavam, especialmente os rapazes de sua idade, muito superficiais.

Não tinha grandes ambições, mas não desdenhava o conforto. E sabia, como ninguém, valorizar o efeito provocado por uma bela jóia usada sobre um vestido exclusivo. Brilhava nas festas a que era levada como um troféu a ser exibido, mas saía delas, invariavelmente, cedo, entediada.

Com o passar do tempo, o sucesso de seu marido passou a absorver partes cada vez mais consideráveis do tempo antes dedicado a ela. Começaram a diminuir as primaveras passadas em Paris, os verões em Acapulco, os outonos em Buenos Aires. Não se importava. Nunca gostara de tais cidades nem da frívola badalacão ao seu redor.

A fria beleza da juventude apenas se acentuou com a chegada da plenitude da maturidade. Os mesmos cabelos negros emoldurando um rosto surpreendentemente claro, os mesmos olhos sugando os olhares como buracos negros. Assim o mistério e a tristeza do sorriso. E um sentimento de insatisfação consigo mesma que não diminuiu com a idade, ao contrário, parecia acentuar-se a cada dia.

Sentada em um café, certa tarde tediosa, passeava aquele negro olhar pela calçada, quando notou um casal entrando, furtivamente, no hotel do outro lado da rua. Aquilo despertou-lhe a curiosidade e, quando não havia mais como estender sua presença no café, transferiu-se para o restaurante do hotel, onde pediu um martini. Ali ficou na sua vigília até que percebeu o mesmo casal saindo, cada qual para um lado, dissimulando o relacionamento.

Uma sensação que não tentou explicar tomou conta de seu espírito. Pela primeira vez em anos demonstrava interesse por algo ou alguém. Neste caso, por uma situação de perversa clandestinidade. Voltou para casa sem conseguir deixar de pensar na situação que testemunhara. No dia seguinte, voltou ao hotel e notou outros casais e comportamentos semelhantes. Sorriu por nunca antes haver percebido tais encontros reservados.

Nos próximos dias aquilo passou a ser uma obsessão. Recriminou-se por tão mórbida curiosidade pelo comportamento alheio, mas não conseguiu deixar de se interessar. Viajou a uma cidadezinha próxima, onde comprou uma peruca clara, algumas roupas de gosto não muito refinado, uma mala discreta e guardou tudo no porta-malas do seu carro.

A idéia que tomava forma deixou-a febril e inquieta. Por alguns dias ficou de cama, despertando cuidados do marido que atribuiu aquilo a alguma virose não identificada. Uns dias de repouso e uma alimentação reforçada resolveriam o caso.

Quando tornou a sair de casa o fez com o planejamento completo. Dirigiu até um estacionamento fechado no centro da cidade, trocou de roupas, colocou a peruca, óculos escuros, pegou um taxi e foi para um hotel de luxo, do outro lado da cidade. Não demorou a ser abordada. Silenciosa, acompanhou o homem ao seu quarto.

À hora do jantar já estava em casa, com a impassividade e classe de sempre. Intimamente sentia-se viva. Sentia que algo que não conhecera estava se descortinando para ela. E todas as tardes repetia o roteiro e o ritual, variando de hotel e nunca repetindo um parceiro. Acreditava estar sendo cuidadosa e discreta como sempre.

Certo domingo em que os empregados da casa estavam de folga, encontrou o marido sentado na poltrona do escritório, olhar vitrificado, vítima de fulminante ataque cardíaco. Aos seus pés, espalhadas pelo tapete persa, dezenas de fotografias de uma mulher loira, de óculos escuros e roupas vulgares, com diferentes acompanhantes. Junto estava um relatório detalhado dos seus passos nas últimas semanas.

A culpa, a vergonha e o arrependimento não lhe permitiram derramar uma lágrima sequer. Assim que as providências com o enterro e destruição das fotografias foram tomadas, simplesmente abandonou tudo e desapareceu, mudando-se para uma distante e pequena casa de janelas verdes em uma vizinhança discreta de pessoas simples e honestas.

Na casa havia um gato e um tapete gasto. Nunca gostara de gatos, mas ele parecia tê-la escolhido. Deixou que por ali ficasse pelos anos seguintes, muda testemunha de uma vida sem sentido.