Aceita uma taça de vinho? # 3

Continuando nosso papo sobre vinho, chegou a vez de falar de preços! Como tudo mais, obviamente, também vamos encontrar vinhos mais caros e mais baratos. Uma aproximação simplista poderia reduzir a equação ao óbvio "quanto mais caro, melhor". Entretanto, nem sempre é assim. Vamos examinar a coisa com mais calma.
Há pouco fui informado que um produtor brasileiro paga R$ 3,60 por uma rolha de boa qualidade, R$ 3,20 por uma garrafa, e gasta mais cerca de R$ 1,50 com o rótulo e o lacre. Significa que apenas o "lixo" que sobra depois de nos deleitarmos, custa R$ 8,30. Sem considerarmos mais nada, nem o frete, já se vê que não pode haver vinho nacional razoável por menos que isso.
Entretanto, até pouco antes da crise econômica, havia razoáveis vinhos argentinos por esse preço. Como nossos vizinhos conseguem tal façanha? Quando eu descobrir, talvez abra uma vinícola!
Está claro que a indústria vinícola na Argentina e Chile é encarada com muito mais profissionalismo e há muito mais tempo que aqui. Sabemos, por exemplo, que enquanto uma plantação de uvas em território brasileiro recebe nada menos que 20 aplicações de pesticida por ano, na Argentina, há plantações que não recebem nenhuma.
Este fato, além de pesar nos custos, significa uma sanidade do produto argentino que nunca será sequer aproximada pelo médio produtor brasileiro. Isto também aponta na direção do respeito pelo consumidor, que não estaria pagando para ser envenenado.
Nem tudo são espinhos, entretanto. Ultimamente tem havido forte investimento estrangeiro no Vale do São Francisco, gerando vinhos de melhor qualidade, elaborados com mais atenção e cuidado, e com a preocupação de melhorar sua relação custo/benefício.
Alguém há de se lembrar dos impostos. Sim. É verdade. Os vinhos brasileiros pagam uma enormidade de impostos. Só que os vinhos estrangeiros também o pagam, assim que ultrapassam nossas aduanas e, mesmo assim, qualidade por qualidade, continuam com preços mais atrativos. E não só os argentinos e chilenos. Também os portugueses têm conseguido chegar aqui com preços mais atraentes que os nacionais. Os franceses, italianos, espanhóis, norte-americanos e sul-africanos, não. Seu preço comparativo é alto.
O que sobra, portanto, para imaginarmos? Claro! Que o produtor brasileiro não é tão eficiente quanto poderia ser. E não vale aqui nenhuma "patriotada" de dizer que os vinhos brasileiros têm ganhado prêmios em diversos locais do mundo. Não há vitória em concurso, por mais charmoso que possa ser, que me convença que deva pagar mais caro por um produto inferior.
Quer dizer que os vinhos importados são sempre bons? Claro que não! Eles apenas são, comparativamente, mais baratos. Podemos encontrar verdadeiros vinagres importados, sem dúvida, e aí é que chegamos ao que queria discutir no artigo de hoje.
- Os vinhos mais caros são sempre melhores que os mais baratos? A resposta é um retumbante NÃO! Existem vinhos numa faixa de preços muito baixa que são, obviamente, ruins, não importando a sua nacionalidade. O outro extremo também abriga verdades simples como esta: existem vinhos numa faixa de preços muito alta que são, inegavelmente, muito bons. Mas a grande "mágica" é que, numa faixa intermediária de preços, encontramos vinhos surpreendentemente bons, e que são até mais baratos que outros não tão bons.
Nesta equação encontramos um detalhezinho da maior relevância: a eficiência. Ainda não chegou a hora de mencionar marcas e variedades, mas alguns fabricantes de vinhos nossos conhecidos conseguem SEMPRE oferecer, em toda a sua linha, vinhos superiores a preços honestos.
Na faixa de preços mais alta acontece um fato curioso, para dizer o mínimo. Existem vinhos tão caros, que ninguém os toma. São comprados por grandes magnatas do primeiro mundo, que os utilizam como investimento. Há vinhos quem nem seus produtores têm coragem de bebê-los, tal é o preço que alcançam no mercado especulativo.
Há pouco tempo, jornais noticiaram a descoberta de um navio naufragado durante a Segunda Guerra, quando levava um enorme carregamento de champanha para a Rússia. Ora, essas garrafas ficaram cerca de 60 anos no fundo do mar. Quando foram retiradas, muitas delas estavam razoavelmente protegidas pela embalagem. Esses vinhos foram leiloados e vendidos por uma fortuna! Alguém quer que eu acredite que alguém vá bebê-los? - Nunca! Até porque, se uma garrafa dessas for aberta, com toda certeza, mostrará que seu conteúdo não passa de água salgada que penetrou pelos poros das rolhas.
Então, caso eu encontre um vinho muito caro, com certeza, ficará onde estiver, pois um vinho que custe, digamos, 20 vezes o preço de um de que eu goste, não me dará vinte vezes mais prazer, disso tenho certeza.
Resumo da ópera: os melhores vinhos, aqueles que nos darão mais prazer, serão os que estão numa faixa de preço ao alcance de nosso bolso. Seja ele mais recheado ou mais esquálido. É simples assim.
Um dia falaremos do assalto que é o preço de uma garrafa de vinho em um restaurante!

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