Terça-feira, Outubro 06, 2009

Aceita uma taça de vinho? # 5

(Mais uma vez, o que se segue é um artigo escrito para o jornal Floripa Total. Como já se sabe, sua versão digital está aqui.)

Uma das muitas lendas sobre a origem do vinho conta que ele teria sido descoberto por acaso, no antigo Egito. Uma rainha estava deprimida por ser preterida pelo Faraó, em favor de cortesãs mais novas e bonitas, e teria saído a perambular pelo castelo, chegando aos porões onde os alimentos reais ficavam guardados. Tonéis malcheirosos teriam chamado a sua atenção. Informada pelo responsável que continham restos de uvas que não haviam sido consumidas a tempo, pensou em suicídio, tomando o líquido que se acumulava no fundo de um dos tonéis. Não só não morreu, como ficou bem "alegrinha", pois o líquido se fermentara, transformando o açúcar das uvas em álcool. Subornou o guardião das despensas reais para que não contasse nada a ninguém e, assim que pôde, trouxe o Faraó para experimentar sua descoberta. Ele também teria ficado encantado com o que bebera, mandando pesquisar o assunto, produzindo o líquido de maneira mais higiênica e constante. E o casal, sob os efeitos do recém-descoberto VINHO, renovou sua paixão e viveu feliz por todo o sempre, como determinam as lendas que se prezam.

Mas sempre ficou para nós, ocidentais modernos, uma questão insidiosa: - Vinho faz bem? Vinho faz mal? Esta eterna dicotomia entre o "bem" e o "mal" é o tema de hoje. Quem não vive em Marte ou trancado em uma torre de marfim já deve ter presenciado inúmeras vezes essa discussão sem fim. Num dia, todos os meios de comunicação demonizam as bebidas alcoólicas em geral e o vinho em particular. No outro dia, todos eles estampam o resultado de pesquisas seriíssimas dando conta de que o vinho faz bem para o coração, para o cérebro, para todos os males que afligem a humanidade. E quem se guiar por eles, com certeza, ficará confuso, para dizer pouco.

É muito divulgado, por exemplo, o famoso Paradoxo Francês. Isso foi o resultado de uma pesquisa patrocinada pela indústria vinícola francesa, segundo a qual, mesmo consumindo muito mais gorduras e alimentos pesados que os americanos, os franceses tinham uma incidência de doenças cardiovasculares muito menor. A razão seria o hábito do consumo regular de vinho às refeições. Sua divulgação foi feita por Serge Renaud, inicialmente nos Estados Unidos, no programa 60 minutes da CBS, em de 7 de novembro de 1991 e, posteriormente, na revista científica The Lancet, em julho de 1992.

Os polifenóis seriam os responsáveis por tornar o vinho uma bebida e um alimento diferente de todos os outros. Os polifenóis existem apenas no reino vegetal e são mais de 8.000 tipos. A eles cabe a missão de defesa dos vegetais contra ataques físicos como a radiação ultravioleta do sol, e ataques biológicos – dos fungos, vírus e bactérias. Para tanto, revestem-se de importante ação antibiótica, potente efeito antioxidante e se distribuem, quase que unicamente, nas cascas, sementes e folhas. Nos vinhos já foram identificados cerca de 200 polifenóis, cerca de 95% oriundos das cascas e sementes das uvas. É por isso que os vinhos tintos, que são fermentados na presença delas, têm cerca de 10 vezes mais polifenóis que os vinhos brancos, que fermentam na ausência das cascas e sementes. É por isso também que os tintos, como regra, são apontados como mais benéficos à saúde. Entretanto, os polifenóis existentes nos vinhos brancos seriam em menor número, porém com uma ação antioxidante mais potente.

O outro lado da moeda é o fato de que o vinho é uma bebida alcoólica, e o álcool causa alterações múltiplas no funcionamento do organismo. Ele provoca sonolência ou agressividade, irritabilidade, agitação, alteração de equilíbrio e marcha, alteração de memória, vômitos, convulsões, coma e até morte. Câncer do sistema digestivo, cirrose, pancreatite alcoólica, perda de sensibilidade em membros inferiores, atrofia do cérebro, arritmia cardíaca, impotência sexual, esterilidade e outros. Sem contar as conseqüências sociais, como o desajuste familiar, mau rendimento e relacionamento no trabalho, predisposição a acidentes no trabalho e trânsito, faltas ou atrasos, suscetibilidade para produzir e sofrer violência.

Mulheres e homens têm tolerâncias diferentes ao álcool. Médias aceitáveis por dia em homens são de até duas doses, enquanto que em mulheres e idosos é de apenas uma, considerando uma dose como 350 ml de cerveja, 150 ml de vinho ou 45 ml de licor.

Isso me remete, automaticamente, a uma frase dita certa vez, não por Roberto Carlos, mas por Alexander Woollcott (1887 – 1943), crítico e comentarista norte-americano da Revista The New Yorker: "Todas as coisas de que eu realmente gosto são imorais, ilegais ou engordam". Ou seja, cá no "andar de baixo", ficamos todos perplexos, sem saber como funcionar, como agir. Será?

Eu digo por mim: vinho não é medicamento e não busco no "álibi" de que possa fazer bem à saúde razões para seu consumo. Não tomo vinho para ficar saudável e nem para fugir à realidade. O prazer de um bom copo de um belo vinho é razão suficiente para consumi-lo com parcimônia, mas sempre. Acredite. Saúde!